segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Seria o fim do "rouba, mas faz"?

Esse era o lema de um político na década de 50. Imaginem o nível da política brasileira: o cara já fazia campanha afirmando que roubaria, mas também lembraria em algum momento do povo...

De lá para cá, a nação brasileira foi se acostumando a todo tipo de ladroagem. Todo político seria ladrão e pronto. O voto na urna seria uma verdadeira licença para os mais terríveis malfeitos com o dinheiro público. Aliás, o conceito de coisa pública era de coisa do governo. E quando vivíamos a ditadura, parecia ser uma espécie de vingança depredar o patrimônio "do governo". E assim surgiu esse sentimento forte de que coisa pública não pertence ao povo, e sim aos políticos da situação.

Só que no meio do caminho havia uma pedra: a constituição de 1988. No afã de ser garantista e impedir novos arroubos que retirassem direitos do cidadão, a carta magna brasileira trouxe importantes instrumentos para que essa triste realidade do "rouba, mas faz" enfim pudesse nos abandonar.

Não, ela não nos abandonou ainda. Afinal, a constituição ainda é jovem (apenas 27 anos). Seus conceitos ainda estão sendo sedimentados, tanto no mundo jurídico, como no mundo cão dos políticos.

Hoje é preciso prestar contas de cada centavo gasto do dinheiro do povo. As negociatas precisam ficar mais escondidas. Tudo é  feito em aparente legalidade. Mas investigações mais aprofundadas, sempre empreendidas pelo Ministério Público, seja federal ou estadual, revelam jogo de cartas marcadas em licitações, propinas disfarçadas de doações, empréstimos e outras vilanias. Ressalte-se que esse papel do MP foi trazido pela constituição de 1988, que lhe deu garantias contra afastamentos a bel prazer dos governantes. O MP deixou de ser advogado do governo para ser fiscal da lei.

Desde a entrevista em que o presidente de então do Brasil disse para todo mundo ouvir que seu partido fizera caixa 2 (motivo que derrubara Collor em 1992), como se um crime cometido por muitos perdesse o caráter de ilicitude, Ministério Público, Polícias e Poder Judiciário parecem ter finalmente compreendido que a nossa constituição não pode ser um texto sem aplicação. Mensalão, Petrolão, Lava Jato, Zelotes e todos os outros escândalos diários e infinitos em todos os níveis de atuação política neste país seguem sendo fustigados, vasculhados e até punidos! Aos poucos, é verdade. Devagarinho, porém, numa marcha sem volta. O recado é simples: aqui já não se tolera mais o "rouba, mas faz". É preciso zelo com o dinheiro suado do povo.

O impeachment de Dilma, por exemplo, desafia politiqueiros Brasil afora. É princípio fundamental de direito administrativo que a administração pública só pode fazer o que a lei expressamente permite. Se não permite, então é proibido. Exatamente o contrário do cidadão. Nós podemos fazer tudo o que a lei não proíba. Se não proíbe, é permitido para nós. Por que a diferença? Proteção ao suado dinheiro do povo! A administração pública, desde o chefe de governo até um mísero estagiário, só pode atuar nos limites da lei. Se a lei proíbe estripulias com o dinheiro público, quem bobear dança. Ou deveria dançar...

E qual o medo dos governantes? Se Dilma cair, uma ruma de prefeitos e governadores devem acompanhar o destino pelo mesmíssimo problema: ginásticas feitas com o dinheiro público para cumprir metas determinadas em lei. Cumprir para inglês ver, diga-se de passagem, porque não houve cumprimento algum. Um ano inteiro de pagamentos realizados por um banco em nome do governo sem que haja dinheiro na conta do governo se chama empréstimo. O dinheiro daqueles pagamentos, que deveria estar ali, foi utilizado para outras coisas. Se você saca dinheiro da sua conta corrente sem que tenha dinheiro nela, já sabe que pagará juros, porque está sendo financiado pelo banco. Mas governos só podem pegar "empréstimos" com autorização prévia do poder legislativo. A lei não permite que o governo use "cheque especial". E quem desafia a lei...

A nação brasileira caminha a pequenos, mas incessantes passos para mostrar que temos apego às leis. Pelo menos nós que não somos políticos. A lei tem que soar como uma espada pronta a desabar sobre a cabeça de governantes sem zelo com a coisa pública. Mas para quem se acostumou com o Brasil do "rouba, mas faz" isso é uma afronta. Daí assistirmos todos os dias a políticos zombando dos outros (não-políticos, claro) que ainda trabalham em prol da nossa nação.

Pode demorar. Dilma pode até escapar, salvando a pele de muitos governantes salafraios por aí, afinal o impeachment é um julgamento político e exclusivamente a cargo de um Congresso desmoralizadamente presidido por um deputado com contas secretas na Suíça. Mas a nação brasileira parece querer seguir um novo rumo, longe de expressões perjorativas como "rouba, mas faz", "jeitinho brasileiro", "país das leis que pegam e que não pegam", e por aí vai.

Muita gente quer seguir esse novo rumo. Falta você, que diz não gostar de política, acompanhar mais de perto o que os políticos andam fazendo com o dinheiro público. Falta pararmos de eleger os que mentem descaradamente. Depois evitaremos os que mentem veladamente. Até sobrarem os bons. Assim faremos. 

Sonho com o dia em que "jeitinho brasileiro" significará honestidade e ética à toda prova. A cada dia que passa ele fica mais perto de chegar.

Reapresentação secreta

Já vi treinamento secreto, mas reapresentação é a primeira vez. A direção do América resolveu que a reapresentação, ou apresentação no caso dos novatos, será feita sem qualquer cobertura jornalística ou olhar da torcida. Não houve esclarecimento acerca do motivo ou mesmo de quem partiu a ordem, apenas que veio da "diretoria", assim, bem genérico, sem maiores especificações.

A ordem não partiu da comissão técnica, mas da diretoria. Da última vez que isso ocorreu no RN foi a diretoria do ABC (também sem especificações) que mandou fechar o treino sob comando de Josué Teixeira antes da final centenária.

Aluísio Guerreiro já começa bem no quesito comando. As contratações foram feitas à sua revelia e agora até seus primeiros momentos como técnico passarão longe dos curiosos por ordem exclusiva da diretoria. Será que ele vai mesmo comandar os treinos? 

Por enquanto, a diretoria decidiu que só a partir de 26/12 os treinos serão abertos. Até segunda ordem.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Aidar x Ceni, Cruz e Osório

Carlos Aidar, ex-presidente do São Paulo, remexeu a polêmica em entrevista ao Diário de São Paulo, republicada pelo Estadão no domingo. Vejamos trechos:

Sobre Rogério Ceni: "Ou você joga o jogo dele ou está fora do jogo. Eu já achava que estava na hora de abrir espaço para outro goleiro no ano passado, mas houve uma baita pressão e ele ficou até agora. (...) O Rogério Ceni não deixava que surgissem líderes. Um exemplo era o Dória, que batia de frente com ele. O Rogério também não gosta do Pato pelo fato de ele ganhar muito. O Rogério marginaliza essas lideranças."
Sobre Milton Cruz: "O Luiz Eduardo quem descobriu com olhos clínicos foi o Milton Cruz. E quem fez o agenciamento? O filho do Milton. Eu deveria ter mandado embora o Milton. (...) Tive de proibir o Milton Cruz de levar o celular para o banco de reservas e para o vestiário, porque descobri que o Abílio Diniz ficava ligando durante o jogo para dar palpite sobre escalação."

Sobre Juan Carlos Osório: Não sei como ele ganhou o respeito incrível da imprensa e da opinião pública. Era um marqueteiro danado. Não repetiu o time uma vez em 22 partidas. Isso não é coisa de treinador, mas de alguém achando que o São Paulo é laboratório. (...) Eu sabia que ele fazia rodízio, mas não sabia que punha goleiro de centroavante, lateral no meio-campo. Se soubesse, não o traria. Só me arrependo de não ter mandado a mensagem no celular dele antes. Fui eu quem mandou ele parar de rodízio para definir logo o time."

Sobre Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente pivô de sua renúncia: "Houve uma tentativa dele de me enforcar. Tudo começou no sábado, quando ele foi na minha sala no Morumbi e gravou o tal áudio. Aí, no café da manhã de segunda-feira, da diretoria, ele veio dizer que o negócio do Maidana estava esquisito. Respondi que ele e o pessoal da base que tinham começado o negócio e que passei a negociar porque eles eram incompetentes e perderiam o atleta. Do nada, o Ataíde bateu a mão na mesa. Eu também bati na mesa e disse para ele parar de ficar com frescura. Perguntei na frente de todo mundo se o Julio Casares havia emprestado dinheiro para o Ataíde. Ele disse que sim. Aí, o Ataíde pôs as duas mãos no meu pescoço. Para me defender, acabei quebrando a cartilagem de um dos dedos da mão"

Sobre sua última passagem como presidente: "Foi um erro voltar ao São Paulo. Em 2014, eu estava numa zona de conforto, ganhava sem nem ir ao escritório. Não é fácil ficar ouvindo falarem mal da minha filha, da minha mulher. Me chamando de corno, viado, ladrão…"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

100 anos de Sinatra


Que bela coincidência os 3 grandes clubes do RN compartilham com The Voice (A Voz)! Frank Sinatra, se ainda estivesse entre nós, completaria 100 anos neste sábado, 12/12, mesmo ano em que América, ABC e Alecrim também comemoram o seu centenário.

Intérprete de primeira e de inconfundível voz e marcantes olhos azuis, Sinatra presenteou o mundo com inúmeros sucessos, podendo ser destacado sem nenhuma injustiça o hino de amor a Nova Iorque New York, New York, verdadeira ode à esperança do recomeço na capital do mundo.

Ele também teve boa participação em filmes de Hollywood, na época áurea dos musicais. Ganhou Oscar de melhor ator coadjuvante em 1954 justamente no filme em que não cantou: A um passo da eternidade (From here to eternity, 1953).

A Globo News o homenageou em seu Arquivo N, que será reprisado amanhã às 15h05 (horário de Natal). Vale a pena conferir.

Como a lista é muito grande, deixo dois super duetos (Ella Fitzgerald e Elvis Presley, de quem sou super fã!) e alguns sucessos de arrepiar d'A Voz. 





Quando Marta superou Pelé

A Arena das Dunas tem uma queda por feitos históricos. Lá foi marcado o gol mais rápido da Copa do Mundo 2014: Dempsey, aos 28 segundos de EUA x Gana no dia 16/06. O placar final foi 2x1 para os americanos. 

Lá também ocorreu a polêmica mordida do atacante uruguaio Luis Soárez no zagueiro italiano Chiellini (Itália 0x1 Uruguai, em 24/06, também pela Copa 2014).

Foi também na Arena das Dunas que a rainha Marta deixou o rei Pelé na poeira no quesito gols marcados com a camisa da Seleção Brasileira. A alagoana marcou 5 gols na histórica goleada de 11x0 contra a seleção de Trinidad e Tobago (em 09/12/15) e agora tem 98 gols contra 95 de Pelé. E ainda há mais 3 rodadas da Copa Caixa Internacional de Futebol Feminino na mesma arena para que Marta aumente sua supremacia.

A coincidência desses 3 eventos? Eu estava lá, acompanhando tudo de pertinho e vou levar para sempre comigo a lembrança de quando Dempsey foi o mais rápido da Copa 2014, de quando Suárez bancou o vampiro e mordeu o ombro de Chiellini e da noite em que Marta superou Pelé.

Obrigada, Arena das Dunas!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Hoje tem Brasil de Marta e Formiga na Arena das Dunas

Essa é para quem gosta de futebol bonito, para quem apenas torce pelo Brasil e até para quem gosta de aparecer na TV. Hoje começa a Copa Caixa Internacional de Futebol Feminino com transmissão da Band e do Bandsports em HD para todo o Brasil.

Às 18h15 tem jogo de Copa do Mundo, já que ambas as seleções estiveram na Copa 2015, disputada no Canadá: México x Canadá. 

Às 20h45, Marta, Formiga & Cia entram em campo: Brasil x Trinidad e Tobago. Formiga volta a Natal após ter defendido as cores do América em 2012, quando foi campeã invicta do estadual. E Marta está a dois gols de se igualar a Pelé, maior artilheiro de todos os tempos da Seleção Brasileira. Ou seja, a Arena das Dunas pode acolher mais um feito histórico.

Ingressos à venda no site Arena das Dunas (estavam com 10% de desconto quando eu comprei; por isso comprei logo às quatro rodadas) e lá na bilheteria. O setor mais barato, mas nem por isso menos empolgante, é o setor leste, com ingressos a R$ 40 e R$ 20 (meia).

Não fique de fora e nem deixe para a última hora!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De Temer para Dilma, com amor

Eis a íntegra da carta que o vice presidente Michel Temer enviou para a presidente Dilma Roussef:

São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.
Senhora Presidente,
"Verba volant, scripta manent" (As palavras voam, os escritos permanecem)
Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.
Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.
Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.
Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.
Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.
Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.
Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo.
Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.
1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários.
3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.
4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas "desfeitas", culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta "conspiração".
5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequência no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação.
6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento. Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.
8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden - com quem construí boa amizade - sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da "espionagem" americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança;
9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma conexão com o teor da conversa.
10. Até o programa "Uma Ponte para o Futuro", aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.
11. PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.
Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.
Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.
Respeitosamente,
\ L TEMER
A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil
Palácio do Planalto

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um novo Boa

Que me perdoem os dirigentes do América, mas ao ver as contratações do clube para a temporada 2016, a impressão que fica para mim é que o América é o novo Boa Esporte Clube.

Para quem não sabe, o Boa é um clube novo de Minas Gerais, quase sem torcida, e cujos plantéis têm uma marca registrada: são formados em sua maioria por atletas que queimam os últimos cartuchos na tentativa de deixar o franco declínio para trás. Aliás, até a comissão técnica só dá certo (quando dá) lá.

É bom ressaltar que a estratégia nem sempre foi fracassada, mas não lembro de uma grande conquista do Boa. Nem torcida ele consegue!

Aplicar essa estratégia de UTI dos desesperados num clube centenário, acostumado a conquistas e com uma torcida extremamente exigente revela que os dirigentes americanos são arrojados e não temem o risco de tal empreitada. Desde o treinador, que não deu certo em canto algum, até a chegada de Neto Potiguar e Ramon, afora outros encostados, inclusive ex-ABC, a exposição ao risco cresce exponencialmente e preocupa sobremaneira os torcedores americanos.

É claro que pode dar certo! Já vimos muitas bizarrices terminarem em conquistas. Mas os fracassos superam e muito o sucesso dessas misturas arriscadas, o que acende o alerta da torcida.

Apostar em jogador barato que jogava num clube qualquer, OK. Deu certo por aqui inúmeras vezes. Mas muito macaco velho reunido pode levar a safra inteirinha para o lixo.

É preciso cuidado com a tradição. O Boa não está para o futebol de Minas nem perto do que o América representa para o futebol do RN. O que funciona (?) lá pode ser um verdadeiro tiro no pé aqui.

Tite no RN

Abordei a questão da continuidade de jogadores e treinadores algumas vezes por aqui. Destaco duas vezes em que falei do América ainda com os campeonatos rolando: Um mínimo de estabilidade, por favor e Estabilidade é a chave, em março e outubro, respectivamente.

Agora todo mundo aplaude a fórmula mágica de Tite no Corinthians. Que tal voltarmos no tempo para vermos uma declaração dele em maio, após a eliminação na Libertadores e no Paulista: "Sobre reformulação temos que ter cuidado. Futebol não é assim, tem outro componente, a construção de uma equipe demanda tempo." (ESPN)

No Estadão de domingo, Tite falou sobre como montou o esquema vencedor:

"Não sou mágico, muito menos criei a roda. Eu só fiz adaptações, reciclagem e mudanças na equipe. (...) Dizem que o 4-2-3-1 é muito parecido, mas não é. O posicionamento do meio de campo no 4-1-4-1 é mais avançado e mexe na estrutura da equipe. O Renato Augusto, por exemplo, alterna movimentos ofensivos e defensivos com o Elias, que também ajuda na criação e na infiltração. (...) Quem joga pelos lados do campo tem características distintas. Um é agressivo e vertical. O outro é construtor e criativo. A Alemanha tem Müller e Ozil. Nós temos Malcom e Jadson. (...) No começo do ano, não imaginei que esse homem de criação seria o Jadson. Pensei que pudesse ser o Renato Augusto porque na Europa ele já tinha exercido essa função. Na sequência, o Jadson começou a fazer esse papel de maneira extraordinária. (...) A defesa com uma linha de quatro fixa, compacta, proporciona a 'Cavadinha' a todo instante. No City, o David Silva faz muito bem isso. Aqui, Danilo, Jadson e Renato buscam o mesmo. (...) O Barcelona faz pressão alta quando joga contra times que jogam atrás. O treinador demarca o campo na faixa intermediária e, durante 12 minutos, pede que os titulares não deixem os reservas darem mais do que cinco toques na bola. Se você ver Neymar, Messi e Iniesta fazendo essa marcação é impressionante. Os caras vão para dentro."

Perder Paulistão sem reformular equipe e comissão técnica? 4-1-4-1 com um jogador não tão vertical e o famoso poste isolado lá na frente? Craque da equipe marcando no lugar do volante? Craques fazendo treinos de 12 minutos de marcação pressão feita por eles? Tite não aguentaria um mês no futebol do RN. Seria tachado de enganador, retranqueiro ou professor Pardal. Ou os três juntos.

Voltando à continuidade, por aqui, fazia tempo que não via um treinador começar e terminar a temporada (Roberto Fernandes, América, 2015). Mas foi só uma andorinha. Em 2016, tudo indica que a normalidade voltará para América e ABC. A média é de 3 partidas de paciência. E neste ano a terceira rodada do estadual traz o clássico entre os maiores rivais centenários. Já estou com pena de Aluísio Guerreiro e Sérgio China.

domingo, 6 de dezembro de 2015

É preciso estar preparado

Ao longo dos anos, a vida me ensinou que quase tudo nela requer preparação. É preciso estar preparado até para receber um prêmio de loteria, sob pena de enlouquecer, cair em depressão ou terminar na miséria.

A leitura de um livro também requer preparação. Essa eu aprendi na faculdade. Dê um Caio Mário a quem dá seus primeiros passos no Direito Civil e a aversão será quase que instantânea. Algum tempo depois a leitura do mesmo autor torna-se extremamente agradável, quase como saborear um vinho para especialistas. Ou seja, se você achar algum livro difícil, volte a ele alguns anos depois.

A verdade também requer preparação. Quem bem retratou isso foi o excelente filme Matrix. Nele, um dos personagens não consegue conviver com a realidade de um mundo cheio de agruras e prefere voltar a ser mais uma pilha adormecida iludida pelo grande computador. O mundo dos sonhos, sabidamente irreal, era o seu lugar.

Não é preciso ir longe para encontrarmos gente assim todos os dias. Ser portador de uma verdade pode lhe transformar em inimigo dessa gente, afinal nem todo mundo deixa com tranquilidade a ilha da fantasia. Quem é assim defenderá com unhas e dentes a ilusão em que vive.

É uma angústia sem fim ter apego à verdade. No entanto, o pior é ter que aguentar aquele que gosta de mentir achando que você tem QI de dois dígitos. Ele está lá, cheio de si, achando que a inteligência de seus alvos é tão profunda quanto um pires e por isso jamais será descoberto. Nem percebe o camarote que se forma de gente que sabe que a preparação para a verdade ainda não chegou, mas chegará.

Quantas pessoas que conhecemos se encaixam num dos dois lados dessa descrição? Desde a sua casa até os maiores altares do poder, encontramos gente assim aos montes. Felizmente, não são maioria absoluta ou o mundo seria insuportável.

A mentira também requer preparação. É que o repertório não é tão vasto, especialmente quando se trata de tentar enganar quem vive de comparar palavras com ações. Afinal, como diz um ditado em inglês actions speak louder than words (as ações falam mais alto do que as palavras). 

Assim, é preciso estar preparado para lidar com mentiras, mentirosos e enganados. Às vezes, a união entre eles é tamanha que é melhor esperar que a vida encaminhe a melhor solução. Não valem o esforço. Pode ter certeza.