Sou leitora compulsiva e não costumo ter preconceito que textos que chegam às minhas mãos. Preciso ler para só então saber se gosto ou não do que li. Hoje o texto que me impressionou é de autoria de um religioso (Vejam só!), o Monsenhor José Lenilson de Morais, que é mestre em Teologia, com foco em Escatologia Dogmática, e Pároco da Paróquia de Sant'Ana e São Joaquim, em São José de Mipibu, cidade com lugar especial no meu coração. O texto foi publicado na coluna Notas do Monsenhor, no jornal O Alerta, edição n.º 556, de setembro de 2026 e me chamou a atenção pela humanidade do Monsenhor num tema que costuma ser tabu. Garanto que vale a leitura completa mesmo, até o último parágrafo, o mais tocante.
O "câncer" da alma e a infinita misericórdia de Deus
Estamos vivendo a campanha anual "Setembro Amarelo", pela qual se procura conscientizar sobre a importância da prevenção ao suicídio, principalmente através daquele "help me", daquele grito por socorro que pode ser decisivo para iniciar um processo de reintegração pessoal e "cura da alma".
O atentado contra a própria vida, que é, sem dúvida, um dos maiores dramas da humanidade, atinge indistintamente todas as classes sociais e todas as profissões, e não deve ser visto como um ato "por falta de fé".
Recentemente, preparando este artigo, voltei a ler o livro-entrevista do saudoso Papa Francisco que por título "O nome de Deus é misericórdia". Na obra, Francisco recorda a urgente necessidade de desenvolver nas paróquias, comunidades e outros ambientes humanos o "apostolado do ouvido", pelo qual se deveria colher as pessoas e ouvi-las com grande paciência, compaixão e ternura (Francisco, O nome de Deus é misericórdia, p. 47).
A abordagem da Igreja Católica sobre o tema em questão evoluiu consideravelmente ao longo dos séculos, distanciando-se de visões estritamente legalistas do passado - que negavam exéquias e sepultamento cristão - para adotar um olhar de acolhimento compassivo à fragilidade humana, especialmente a partir do Concílio Vaticano II.
O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 2281-2283) ensina que, embora o ato contrarie a conservação da vida e o amor ao próximo, circunstâncias como perturbações psíquicas graves ou angústia extrema podem diminuir a responsabilidade do indivíduo, reforçando que não se deve desesperar da salvação eterna daqueles que tiraram a própria vida: "O suicídio contraria a inclinação natural do ser humano para conservar e perpetuar a sua vida.
É, ainda contrário ao amor do Deus vivo. Se for cometido com a intenção de servir de exemplo, sobretudo para os jovens, o suicídio assume ainda a gravidade do escândalo. Perturbações psíquicas graves, a angústia ou o temor grave duma provação, dum sofrimento, da tortura, são circunstâncias que podem diminuir a responsabilidade da pessoa.
Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida".
Há alguns anos fui chamado para celebrar uma missa de corpo presente de uma senhora muito conhecida. Eu a tinha visitado durante sua enfermidade. Sua dor psíquica era enorme a ponto de ter se tornado humanamente insuportável.
Na homilia, a mais breve da minha vida, percebi no rosto da família uma tríplice angústia: a dor pela partida de seu ente querido, o estigma pelo preconceito e a dúvida sobre seu destino final, isto é, se sua alma poderia salvar-se.
Então disse essas palavras que nunca mais esquecerei: "a depressão é um câncer da alma. Assim como um câncer físico, muitas vezes se alcança a cura, outras vezes não é possível. Marta (nome fictício) não queria morrer. Ela não conseguiu suportar uma dor inexplicável. Ela tentou e muito, mas foi humanamente vencida. Porém, a última palavra pertence a Deus, e o atributo que melhor o define é misericórdia".