Tantos anos afundados na Série D (os últimos três na conta da SAF, responsável por mexer no que estava organizado e rebaixar o clube novamente) deveriam ter dado o mínimo de juízo, de responsabilidade, de razoabilidade aos que fazem o América (torcida inclusa).
Eu, por exemplo, sonho todo dia da minha existência como torcedora que um dia os destinos do América sejam definidos por alguém com o senso e a inteligência da Presidente do Palmeiras, por exemplo. Ela entende que num campeonato são muitos concorrentes, mas apenas um será campeão, cabendo a quem dirige o clube analisar friamente o que foi feito por todo mundo até a última partida de seu clube. A responsabilidade nunca é de um só. Mais: é preciso deixar a cara de pau de lado e entender as condições dadas e o resultado alcançado.
Nesta desgraça da última divisão do Brasileiro, não existe justiça. É uma copa - um torneio que tem grupos na primeira fase e segue em eliminatórias até o final. Se numa eliminatória você perdeu um jogador importante, azar o seu. Se um atleta não está rendendo porque seu emocional foi abalado por algo fora do campo, seja de cunho pessoal, seja de cunho profissional, azar o seu. Se um árbitro também não está num bom dia, azar o seu. Se deu tudo certo para o adversário e tudo errado para você, azar o seu. Não há chance de recuperação. É tchau e bênção.
A situação do América em 2026 é de cair o queixo. Uma campanha basicamente impecável, com um time em claro crescimento quanto ao rendimento, jogando de forma ofensiva, mas sem tomar muitos gols. Até a última eliminatória, era a 2.ª melhor campanha geral da competição. Aí a desgraça da tabela colocou na sua frente simplesmente o time de melhor campanha, adversário com quem já se encontrou em seus tempos de Série B, o que demonstra que o nível do confronto seria outro. Teve time bem pior pegando outros aos frangalhos. É um inferno mesmo, não há justiça.
Na primeira partida, um time nervoso consegue vencer o visitante e passa a ser a melhor campanha da competição. Na segunda partida, um time visitante que não merecia tomar o primeiro gol, consegue empatar e virar no seu melhor estilo - partindo para cima. Em seguida, toma um empate absolutamente desmerecido.
No segundo tempo, era até normal o time da casa (de bom nível, reforce-se) partir para cima. Era o tudo ou nada. Aí uma falta sem futuro, um jogador na barreira abre inexplicavelmente e sai o gol que leva a partida para os pênaltis. A luta era tão árdua que o time da casa se contentou em levar a disputa para os pênaltis com medo do que o América poderia aprontar (e quase aprontou) com sua ofensividade.
Um dos dois melhores times iria cair. Foi o que a Série D reservou para América e Gama. Nos pênaltis, houve defesas e desperdícios de ambos os lados. O América levou a pior. Logo ele, que fez gol nas duas partidas, que vinha de uma sequência de 7 vitórias consecutivas, 5 delas nas eliminatórias. Não há justiça na Série D. E isso valeria para o Gama também se fosse ele o eliminado.
A eliminação de 2026 foi a mais doída. Ranielle construiu um time embalado, ofensivo, que me deu gosto de voltar às arquibancadas para acompanhar, mesmo em tempos de apostas descaradas e jogadores com outros interesses que não apenas a desportovidade. Mesmo com as inúmeras críticas que fiz ao elenco, o time engrenou apesar das claras deficiências. Luiz Thiago, que não me encheu os olhos quando chegou, virou artilheiro. Alisson Taddei aprendeu a jogar para o time. Galvan, outro alvo de minhas críticas, virou o jogador destaque pelo que se empenhou tanto para marcar como para atacar.
Os defeitinhos que passavam antes cobraram a conta diante de um adversário de mesmo nível: Ricardo Luz nunca foi bom na marcação, Lucas Rodrigues já não era mais o mesmo nas últimas partidas (Pedro Jorge merecia a titularidade pelo desempenho, mas entendo não ter havido a troca), Evandro sempre foi mais ou menos. Balotelli foi péssimo em Natal e foi ruim mo Distrito Federal (amarelou na hora da onça beber água). Como resolver esses problemas, alguns muito anunciados, se o elenco tinha alguns reservas de nível assustadoramente baixo, como Wellington Tanque e Nicollas Lopo pós-contusão, só para citar dois, e já tinha reserva como titular, como Ricardo Luz com a contusão de Lucas Mendes?
A sopa para o azar foi desenhada lá atrás. Escrevi muito a respeito. O elenco sem reforços à altura poderia naufragar. Claro que também poderia ter dado certo, especialmente se não tivesse cruzado com um adversário de mesmo nível, ou até se aquela falta não tivesse contado com um atleta na barreira que abriu para a bola passar...
O "se" não entra em campo, mas não pode ser minimizado ante a realidade de que o América fez, de longe, sua melhor campanha em termos de imposição ofensiva dos últimos anos, isso mesmo com um elenco trôpego, e que caiu para um adversário que sofreu com ele, inclusive dentro de casa.
E aí não dá para tirar de Ranielle e de sua comissão a responsabilidade pelos ônus, mas também pelos bônus. Mexeu errado? Mexeu. Ainda assim, não foi um reserva que abriu a barreira, nem reservas os que permitiram os dois primeiros gols, particularmente o segundo.
A base do time tem fundação. Criou-se um estilo de jogo absolutamente compatível com o que o América já viu em suas grandes conquistas. Faltou reforçar.
A hora agora é de lamber as feridas, ter o bom senso que sempre fez falta ao América (mas pelo menos chegou neste ano com Ranielle completando uma temporada) e arrumar a casa para 2027.
É preciso manter a comissão técnica, manter uma base, mandar embora quem não deu certo e partir para contratações importantes já no início do ano.
Eu, por exemplo, ficaria, dos titulares, com Renan, Lucas Mendes, todos os zagueiros, Copetti, Alisson Taddei, Galvan e Luiz Thiago. Cassiano e Mateus Régis só se forem reservas e jogarem como já demonstraram em algum momento da temporada que podem. O restante não convenceu, no máximo, quebrou galho, quando não prejudicou, especialmente na hora da onça beber água.
Não vai ser zerando tudo que o inferno acabará, mas fazer diferente e apostar (vixe) no que deu certo, como pede o bom senso, pode levar o América a conquistar no ano que vem o objetivo que ficou no Distrito Federal neste ano. E esse inferno ninguém aguenta mais. Hora de acertar e o acerto passa por Ranielle.
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