segunda-feira, 6 de abril de 2026

A maldição da IA

Sempre que apareço pela OAB/RN dou uma olhadinha nas edições da revista Justiça & Cidadania e, fatalmente, acabo levando algumas atrasadas para casa. Acredito até que as pessoas que lá trabalham já devem me conhecer por algum apelido porque sempre aviso que vou levar e iamgino que ninguém mais faça isso, seja levar as revistas, seja avisar que vai levar.

Não tenho o menor problema em levar revistas atrasadas. Desde sempre me acostumei a ler assim. Minha tia trabalhava numa biblioteca e levava as edições que já não eram mais as "da semana" para eu ler. Li muitas Veja, Istoé, Exame neste modelinho. 

E ainda há uma vantagem: é até possível saber se a cobertura errou ou acertou com alguns dias, semanas ou meses.

Dito isso, não é sobre isso que vou  escrever. É que estava eu numa dessas edições atrasadas quando dei de cara com um texto de um desembargador de tribunal fora do Nordeste defendendo o uso da inteligência artificial na Justiça. Ele defender nem é o problema. A Justiça anda tão assoberbada que entenderam que a solução é a IA. 

Quem já conversou sobre IA comigo cara-a-cara sabe que eu quero uma IA que faça o trabalho pesado dos seres humanos. Por exemplo, quero uma IA que lave roupa, louça, carro, varra, tire a poeira, enxugue, pendure, passe a roupa e por aí vai. Trabalhos braçais e só. Trabalho intelectual, aí deixa com os seres humanos. 

Mas caminhamos para deixarmos todo o trabalho intelectual com a IA e nos agarrarmos com o braçal. Para que os anos de estudo? Para que a formação? Para que o conhecimento? Fiquemos com o nível fundamental (que pode ficar ainda mais fundamental, bastando o conhecimento mínimo para a comunicação) e deixemos a IA com o nível superior. É o fim da picada.

Voltando à defesa do desembargador, estou lá lendo o primeiro parágrafo quando encontro que a IA é "antes de tudo, uma superassistente de redação: precisa, veloz, incansável e desprovida de paixões". Como é que é? Desprovida de paixões? Desde quando a IA é autogenerativa? Ela AINDA provém da inteligência humana e, como tal, está sim submetida a tendências de quem a criou. 

Quantas denúncias temos de reconhecimentos faciais por máquinas que reproduzem vieses racistas, só para ficar no que mais barulho tem causado.

A IA vai sim reproduzindo preconceitos que estão arraigados nas pessoas responsáveis por sua criação. Ora, a IA gerada por mim vai refletir as minhas visões e escolhas de vida. Não há como fugir disso.

Essa de "desprovida de paixões " motivou este texto, mas "precisa" também merece críticas. Será que o desembargador nunca ouviu falar que a IA alucina quando não sabe a resposta e aí inventa o que bem entende? Quantos casos temos de colegas advogados e advogadas punidos por má-fé porque confiaram na sopa de letrinhas de IA que toda busca nos empurra agora e utilizaram jurisprudência puramente INVENTADA pela IA? 

No caso da Justiça, a punição recairá sobre as já tão sofridas partes, especialmente pessoas físicas, que terão que enfrentar agora a IA de 1.° grau e a IA de 2.° grau, dentro de seus vieses, rezando para que, juntas, não alucinem contra si. 

Seria muito pedir que a IA ficasse relegada ao trabalho braçal de distribuição, verificação de litispendência e que tais? 

Não tenho esperança. Já vi professores assumirem com sorriso no rosto que o slide da apresentação foi feito pela IA em 5 minutos (nem precisava me dizer, porque depois de mais de duas décadas dando aula, é fácil demais saber quem preparou ou não sua própria apresentação de forma didática). Vi gente que disse que a leitura de uma determinada lei foi feita pela IA (oi?). A mensagem que parabeniza longamente também ficou para a IA. 

E é isso. Ficaremos relegados e relegadas ao trabalho braçal. Pensar, refletir, algo tão orgulhosamente tido como humano, será tarefa exclusiva da máquina. Ficaremos com vídeos cada vez mais curtos a nos entreter (?!) e uma comunicação puramente visual, como os desenhos pré-históricos revelavam. 

Quem diria que uma mistura de WALL-E e Matrix seria a melhor definição do futuro da humanidade, que se recusa a ter trabalho mental?

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